domingo, 20 de março de 2016

Passaste para o esquecido

Deixei de te ler. Tornaste-te banal e desliguei-me por completo. O teu jogo de palavras fascinava-me e fazia-me dançar nas linhas dos teus textos e agora a música parou e deixei de dançar. Nunca mais foste lido nem revivido por mim. Deixei de te ver nas minhas memórias, passaste para o esquecido.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Vento

Invejo-te... Invejo-te pelo que és, pelo que não és e pelo que fazes. Sim, principalmente por isso, pelo que fazes. Não é uma inveja forte nem nada que se pareça, é estranho (no mínimo).
Podes tocar-lhe como mais ninguém o pode. Sentir cada traço do seu corpo, cada curva, cada detalhe. Podes beijá-lo sem ninguém dar por isso, nem mesmo ele. Tocas-lhe nos lábios e sentes aquela suavidade inigualável existente em cada milímetro que percorres. Para além disto, tens a capacidade de lhe furtar o seu cheiro, de o levar até onde houver possibilidades e brincas com ele. E brincas comigo. De todas as infinidades de lugares para onde o podias levar trá-lo até mim. Parece que fazes de propósito. Crias em mim uma certa revolta. Uma revolta fria e crua. Como é que algo que não se vê pode ter tal poder? Serei estúpido se disser que, para além desta revolta, também me trazes alguma alegria. Sim é isso, para além da tal revolta fria e crua, provocas em mim um descontentamento contente.
Por vezes, nas profundezas do meu psicológico vejo-te como um aliado, como um amigo. Trazes-me tais recordações que sem elas, certamente, o meu caminho seria deveras mais penoso e acidentado.
Queria ser como tu. Queria que ele gostasse de mim como gosta de ti. Como deve ser bom estar com ele 365 dias por ano, 24 horas por dia sempre que se movimenta. Acompanhá-lo em todas as ocasiões. Se me perguntasses se não me fartaria e eu responder-te-ia logo, sem pensar, que não! Como é que me fartaria daquele sorriso? Só o facto de poder secar-lhe as lágrimas do rosto, acariciando-lhe nos momentos de maior necessidade faria de mim a pessoa mais poderosa de todo o mundo.
Hoje sentado neste muro a escrever-te, sinto-te mais presente que nunca. Tenho a sensação que estás aqui sentado a meu lado a contar tudo o que sabes. Tudo o que transportas em ti sobre quem te falo percorre-me o corpo por pequenos trilhos escarlate, chegando ao órgão mais significativo. Gelas-me o interior com o seu odor, inundas-me os olhos com o seu rosto, destróis os meus ouvidos com a sua gargalhada, mas enches a minha alma dele e agradeço-te por isso.
Agora vai! Vai e traz-me mais dele! Quero-o não o tendo pois ele pertence a ninguém... E faz-me um favor. Diz-lhe... Diz-lhe o quanto te invejo pela sorte que tens. Talvez ele compreenda e venha beber um café.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A árvore da forca

Vem! Vem ter comigo à árvore
Onde enforcaram um homem
Que dizem ter assassinado outros três.
Aqui estranhas coisas acontecem
Mas não seria mais estranho
Se nos encontrássemos à meia noite
Junto à árvore da forca.

Vem! Vem ter comigo, por favor!
Vem ter comigo junto à árvore
Onde o morto enforcado
Disse à amante para fugir.
Aqui estranhas coisas acontecem
Mas não seria mais estranho
Se nos encontrássemos à meia noite
Junto à árvore da forca.

Vem ter comigo à árvore
Onde te disse para fugires.
Para sermos ambos livres.
Aqui estranhas coisas acontecem
Mas não seria mais estranho
Se nos encontrássemos à meia noite
Junto à árvore da forca.

Mais uma vez te peço...
Vem ter comigo à árvore
Com um colar de corda
Para usar ao meu lado.
Aqui estranhas coisas acontecem
Mas não seria mais estranho
Se nos encontrássemos à meia noite
Junto à árvore da forca.

(Adaptado)

domingo, 5 de outubro de 2014

Oceano Silencioso



Há dias em que a nossa cabeça parece um oceano de lembranças e recordações, transpondo-nos para um lugar só nosso. Um lugar que fomos criando com vivências, com momentos e principalmente com pessoas, pessoas essas que nos fizeram aprender o que sabemos hoje. 
Às vezes dou por mim tempos infinitos dentro desse meu lugar. E digo-vos que a maior parte das vezes não é deveras agradável. Em todos os oceanos existem correntes, ora fracas ora fortes que nos movem tanto para terra como para zonas sem pé nas quais me sinto perdido e consumido por essa catastrófica quantidade de pensamentos. 
E hoje é um desses dias. As pessoas vão e vêm. Umas permanecem outras desaparecem. Agindo igualmente como dantes ou de diferente modo. E aí pergunto-me “Porquê?” calado, refugiado no meu silêncio ensurdecedor esperando obter respostas concretas que me mostrem um rumo, como um farol. Repito: Hoje é um desses dias.